O mercado de saúde e o difícil exercício de análise de dados na pandemia

Se há uma redução drástica dos exames, procedimentos e cirurgias, estariam as operadoras de planos de saúde obtendo maiores margens de lucro na pandemia?

Toda crise proporciona desafios e oportunidades e o mercado da saúde não foge à regra, no contexto da pandemia do Covid-19.

Por um lado, a pandemia da covid-19 é apontada como a razão para a redução de aproximadamente 80% dos exames e dos procedimentos realizados na rede privada de saúde. Além disso, o número de cirurgias também reduziu pela metade e os procedimentos cirúrgicos representam, em média, 50% do faturamento dos hospitais particulares. Com números de quedas expressivas, hospitais, clínicas e até laboratórios estão preocupados. Para a leitura da íntegra da matéria do portal O Consumerista, clique AQUI.

Por outro lado, então, é possível se questionar: se há uma reuação tão drástica dos exames, procedimentos e cirurgias, estariam então as operadoras de planos de saúde obtendo maiores margens de lucro nesse contexto da pandemia da covid-19? Ou seja, se as empresas e os usuários continuam pagando suas mensalidades de plano de saúde, mas utilizando menos os serviços, haveria uma ampliação do lucro dos planos de saúde?

Pontos obscuros

Não se tem a pretensão de exaurir todas as implicações da pandemia no mercado de saúde, nem mesmo contestar os dados apresentados na matéria, mas sim colocar luz em pontos que podem ficar um tanto quanto obscuros e lançar novos debates.

Sabe-se que o mercado da saúde é extremamente complexo, que conta com inúmeros atores, cujas ações podem repercutir na cadeia inteira. Apesar da complexidade desse mercado, há de se entender ou compreender a existência de um equilíbrio, para que a “engrenagem” do mercado da saúde continue a funcionar. Em um exercício reducionista, temos nessa cadeia de participantes o paciente, os profissionais de saúde, as clínicas, os hospitais, as operadoras de planos de saúde e o Estado.

Um desequilíbrio em um dos elos dessa cadeia (como o apontado, de redução em 80% na realização de exames em clínicas, hospitais e laboratórios), portanto, pode gerar os efeitos nefastos para este elo em específico, mas pode significar ganhos para outros participantes desse mercado, como para as operadoras de planos de saúde.

Planos arcam custos diversos

Não se trata, porém, de uma afirmação, mas de uma hipótese. Isso, porque as operadoras de planos de saúde também vêm arcando com diversos outros custos decorrentes das internações específicas da covid-19. Os números da covid-19 são dinâmicos, mas já existem Estados com fila de espera para internação em UTI, o que pode sinalizar que a balança, em que pese esteja reduzida em um lado, talvez esteja também aumentando no outro lado. Além desse ponto, há decisões judiciais obrigando os planos de saúde a arcarem com as obrigações decorrentes de contratos de beneficiários mesmo sem cumprir os prazos de carência, bem como de beneficiários em débito com a operadora do plano de saúde. Para que se saia de um cenário hipotético e haja uma noção mais concreta para responder à pergunta proposta, ter-se-ia que ter acesso aos dados contábeis dos planos de saúde.

Assim, o objetivo deste artigo é evidenciar que qualquer desequilíbrio na cadeia do mercado da saúde gera consequências indesejadas para alguns. Imagina-se a hipótese de se fechar ou falir hospitais ou clínicas privados. Além de uma maior lotação do serviço público, perdem-se empregos, perde-se em arrecadação de impostos, perdem as operadoras de planos de saúde, que não mais terão aquela unidade credenciada, o que possibilitaria o ingresso e o interesse de mais beneficiários, além de outras tantas implicações.

Artigo escrito por Marcelo Rivera, advogado e sócio proprietário na Marcelo Rivera Advocacia