O consumo depois da peste

Diz-se que o mundo não será o mesmo. Algo óbvio, para quem leu Heráclito e se convenceu de que “ninguém se banha duas vezes nas águas do mesmo rio”. Tudo é dinâmico e mutável por natureza.

A humanidade, mais uma vez, foi posta à prova. Aquilo que parecia improvável no Século 21, repleto de exuberância tecnológica e propiciador das mais disruptivas conquistas geradas pela Quarta Revolução Industrial, foi acometida pela peste. O Primeiro Mundo amargou dezenas de milhares de vítimas e o pânico se instaurou em todos os espaços.

Diz-se que o mundo não será o mesmo. Algo óbvio, para quem leu Heráclito e se convenceu de que “ninguém se banha duas vezes nas águas do mesmo rio”. Tudo é dinâmico e mutável por natureza.

Mas algo ficará dessa pandemia do coronavirus. Na reflexão dos mais sensíveis, indagar-se-á se vaticínios do pensamento universal se mostraram tangíveis. Indagar-se-á se tinha razão Dominique Belpomme, que um dia escreveu: “Há cinco cenários possíveis para o desaparecimento da humanidade: o suicídio violento do planeta, por exemplo uma guerra atômica; o surgimento de doenças graves, como uma pandemia infecciosa ou uma esterilidade que determine um declínio demográfico irreversível; o esgotamento dos recursos naturais; a destruição da biodiversidade; e, por fim, modificações extremas no nosso ambiente, como o desaparecimento do ozônio estratosférico e o agravamento do efeito estufa”.

Aquilo que parecia catastrofismo, parece lamentavelmente real. Pois há quem continue a reclamar a continuidade de práticas nefastas para o frágil e combalido ambiente deste sofrido planeta.

A pandemia um dia cessará. Todavia, deixará lições que afetarão o comportamento e talvez façam o ser humano repensar seu modo de vida. O consumo continuará, porque somos consumidores e dependemos uns dos outros, para satisfazer nossas necessidades vitais. Mas ele será mais exigente e disciplinado. Exigente, porque não será permitido transigir com as normas de proteção que sejam indispensáveis à tutela de nossa higidez física e mental. Um vírus que se propaga pelo contato físico, pela respiração, que deixa vestígios em todas as superfícies e que tem atingido todas as idades, embora prefira os mais idosos, não pode merecer trégua.

A disciplina consumerista reclamará atitudes mais benevolentes em relação aos recursos naturais e premiará aquelas empresas e os empreendedores que mostraram compaixão durante o período mais trágico da pandemia.

É o momento de todas as marcas adotarem posturas éticas inteligentes, que não se mostrem mera retórica ou exercício de marketing, assim como já foi um dia o discurso da “economia verde”.

O mundo que enterrou às pressas dezenas de milhares de pessoas que não puderam sequer merecer a dignidade de um sepultamento convencional, sob o ritualismo do luto e o último carinho dos seres amados, terá de formatar novas fórmulas de convívio. Reavaliar a escala de bens da vida, cultivar o que realmente vale a pena, premiar o acervo de virtudes tão negligenciado pela volúpia da pressa e o ritmo alucinante de uma sociedade inquieta e angustiada.

Há muito o que se extrair deste flagelo. O consumo também passará pelo teste da maturidade e ganhará consistência numa nova etapa da aventura humana pelo planeta Terra.

Artigo escrito por José Renato Nalini, ex-presidente do TJ-SP, atual reitor da Uniregistral, docente da Pós-graduação da Uninove e presidente da Academia Paulista de Letras (2019-2020).