“Não existe argumento técnico para trocar padrão de tomadas”, diz professor da USP

Em entrevista ao Consumerista, especialista em engenharia elétrica fala sobre a possibilidade de revogação da obrigatoriedade da tomada de três pinos

Apesar da grande reverberação política brasileira da atualidade e da emergência em tratar de temas como a recuperação da economia e a criação de empregos, uma pauta que já gerou muita polêmica no passado pode voltar a 2020 ligada na tensão 220V: o padrão de plugues e tomadas para aparelhos e edificações no Brasil.

Adotado no ano 2000 pelo Inmetro e tornado obrigatório para construções e dispositivos em todo o território nacional em 2011, o padrão de três pinos redondos, com encaixe hexagonal, gerou muita controvérsia na época de sua implementação. Agora, ele está na mira do governo federal, que quer rever sua obrigatoriedade.

Apelidado por muitos na época de “tomada do PT”, em função do partido que comandava o executivo nacional, cujo governo estimulou a mudança, o padrão veio para pôr fim ao emaranhado de possibilidades que existia no país: eram cerca de 12 modelos de plugues e oito tipos de tomada, o que forçava que toda residência possuísse uma verdadeira coleção de adaptadores, muitas vezes não certificados.

Por outro lado, além de padronizar, o novo modelo prometia maior segurança para os usuários. Contudo, como toda transição, demorou para que os brasileiros se adaptassem à nova regra. Uma das principais acusações em relação à tomada foi a de que lobistas de multinacionais interferiram para que as empresas pudessem faturar no país, o que não ficou comprovado.

O tema ainda está em análise no governo. Para esclarecer um pouco o tema, conversamos com Josemir Coelho dos Santos, professor de engenharia elétrica da Escola Politécnica da USP.

Crédito: João Escovar/ Grupo Padrão

O Consumerista – Como funciona a adoção de um padrão de tomadas?

Josemir Coelho dos Santos –  O padrão de desenho e configuração das tomadas varia de país para país. Cada um determina um esquema para os equipamentos e dispositivos que serão utilizados em suas instalações elétricas. Não existe o que se poderia chamar de norma mundial. O que existem são instituições internacionais que estabelecem parâmetros que possam harmonizar os sistemas elétricos dos países, mas estão longe de ditar normas globalizadas. Um desses organismos é a IEC (Comissão Eletrotécnica Internacional), da qual o Brasil vem se aproximando, mas essa adaptação é lenta, demorada.

OC – E de onde vem a ideia de o Brasil adotar o padrão atual da tomada hexagonal de três pinos?

J.C.S – Já faz muito tempo, décadas, que o corpo técnico brasileiro sabe que nossas instalações precisavam do pino de segurança, também chamado de “terra”. E, obviamente, não basta ter o pino na tomada, é necessário que ele esteja ligado aos fios de aterramento por toda a instalação. Acontece que, no início do uso da eletricidade no país, não existia nenhum padrão. Cada local e cada empresa fornecedora escolhia suas diretrizes e começava a atender. Ou seja, qualquer um fazia o que queria porque não existia norma. A cidade de Santos (litoral de SP), por exemplo, não tinha fio neutro, era tudo bifásico e a chance do usuário levar um choque era enorme. Depois veio a ABNT e o Inmetro com o padrão, que posteriormente foi tornado obrigatório. Era necessário um padrão para o país.

O pino de aterramento é muito mais necessário no Brasil do que nos EUA. Isso significa que o sistema deles é melhor? Não necessariamente, mas é menos sujeito a acidentes desse tipo. O que não podemos fazer é olhar a tomada sem considerar os padrões elétricos adotados.

OC – E por que o padrão brasileiro é diferente de todos os outros? Por que não se inspirar em sistemas que já eram testados?

J.C.S – A primeira coisa que temos de esclarecer é que o estabelecimento de um padrão de tomadas não é igual em todo lugar do mundo. Ele tem que estar alinhado ao tipo de carga e de sistema elétrico utilizados. O número de pinos da tomada, por exemplo, está atrelado a vários requisitos. No fornecimento ao consumidor brasileiro, é utilizado o sistema neutro-aterrado, no qual os fios que trazem energia têm potencial definido em relação ao terra. Na instalação, neutro e terra se encontram. Isso traz um problema: se o usuário encosta em um desses fios e tem alguma parte do corpo em contato com uma superfície aterrada, vai existir potencial, vai passar corrente e ele vai tomar um choque. Nos EUA, já é diferente. Primeiro porque lá cada estado tem sua regra. Mas, em alguns lugares, o neutro é isolado do aterramento, ou seja, se você encostar em apenas um pino da tomada, não vai levar choque. É preciso uma falha dupla, ou seja, o usuário tocar no pino ao mesmo tempo em que o fio energizado toque no aterramento. Toda essa explicação vem pra dizer que, apesar de ser um item de segurança em qualquer lugar do mundo, o pino de aterramento é muito mais necessário no Brasil do que nos EUA. Isso significa que o sistema deles é melhor? Não necessariamente, mas é menos sujeito a acidentes desse tipo. O que não podemos fazer é olhar a tomada sem considerar os padrões elétricos adotados.

OC – Mas o senhor considera o padrão brasileiro o ideal?

J.C.S – O melhor ou o pior é uma questão de opinião. O padrão brasileiro atende a normas do IEC que tentam harmonizar requisitos de segurança das instalações elétricas. Ele respeita, sim, as necessidades técnicas de um país evoluído e industrializado. O Brasil se beneficiou de ter feito uma escolha tardia. Quem foi escolhendo ao longo dos anos foi aprendendo com os erros. Nós captamos as melhores características dos padrões anteriores. Não vou te dizer que é o melhor padrão possível, por que é difícil avaliar isto, mas atende a muitos parâmetros favoráveis, em especial na questão da segurança.

OC – E que padrões são esses, além do terceiro pino?

J.C.S – O desenho da tomada em si tem vantagens. O recuo em relação à face da tomada é mais seguro, pois o usuário não tem condições de tocar acidentalmente no pino energizado. Além disso, a parte externa do nosso pino é metade metálica e metade isolante, o que evita que, mesmo utilizando uma tomada plana, você toque a parte metálica ao mesmo tempo em que ela toca a tomada.

OC – E existem benefícios ou prejuízos desse padrão para o consumidor?

J.C.S – Um aspecto interessante do nosso padrão é que ele distingue dois tipos de bitola: uma com pinos mais finos, para cargas de até 10 amperes, e outra com pinos mais grossos, para aparelhos mais potentes, que exijam cargas maiores. A tomada mais grossa é mais cara do que a comum, pois o material tem de suportar uma corrente elétrica mais forte. Isso favorece o consumidor, pois 90% das tomadas são de baixo consumo e apenas algumas, como as que ligamos chuveiro, ar condicionado, micro-ondas, máquina de lavar, são de alto consumo. Sem o padrão, o consumidor teria de pagar mais caro por todas as tomadas. Em relação a prejuízo, não vejo nenhum.

É difícil avaliar os custos da troca de padrão, pois o principal não são nem as tomadas, mas a instalação elétrica. Agora, houve mudança no custo de quem faz uma instalação nova? Nada muito significativo. O gasto maior foi para fazer as readequações.

OC – Mas e os custos?

J.C.S – É difícil avaliar os custos da troca de padrão, pois o principal não são nem as tomadas, mas a instalação elétrica. Agora, houve mudança no custo de quem faz uma instalação nova? Nada muito significativo. O gasto maior foi para fazer as readequações. De qualquer maneira, ninguém é obrigado a trocar a tomada imediatamente, com ameaça de aplicação de multas ou corte no fornecimento de energia.

Foram décadas avisando que a tomada de dois pinos era insegura, principalmente depois do advento dos equipamentos eletrônicos, como os computadores. E todos sabiam que, a partir do momento em que fosse determinado um padrão, teríamos custos sociais. O fabricante e o consumidor teriam de se adaptar. Com isso, a sociedade teve de investir para adotar o padrão.

OC – Existem alguns consumidores que exigem indenização das companhias elétricas no caso de queima de aparelhos. O uso das tomadas de dois pinos, por exemplo, poderia ser um argumento para que as concessionárias não arcassem com o prejuízo, já que eles são menos seguros?

J.C.S – Não existe nenhuma relação entre queima de aparelhos e padrão de tomada. Independentemente do padrão, a probabilidade de ocorrer uma falha elétrica e, consequentemente, a danificação do aparelho, é a mesma. O que muda é que, se houver uma falha. As consequências para o usuário e para o sistema elétrico, em termos de segurança, serão distintas.

OC – Qual sua opinião sobre uma possível mudança nas regras?

J.C.S – Bom, ainda não sabemos exatamente o teor dessa proposta ou se ela está sendo apenas cogitada. Mas vamos imaginar uma situação em que seja erradicado qualquer padrão. Que custo isso teria? Zero. Você para de exigir, fica tudo como está. Quem for construir vai ter de comprar algum tipo de tomada e de instalação.

O que penso é que não existe nenhum argumento efetivamente técnico para trocar o sistema. Vai existir uma piora de segurança e as pessoas devem ser responsabilizadas por uma norma que, se aplicada, vai pôr em risco a população.

Se tivéssemos um problema técnico, se a tomada não tivesse dado certo, tudo bem. Mas não, o padrão é bom. Uma possível extinção do terceiro pino, por exemplo, seria um retrocesso no ponto de vista da segurança. Por que alguém em sã consciência faria isso?

OC – Talvez não fosse para reduzir o uso de adaptadores não regulamentados?

J.C.S – Sabe qual tipo de adaptador é aprovado pelo Inmetro? Nenhum. Eles não são seguros por si, isso é fato. Não é pra usar adaptador, ele é um quebra-galho, mas pode provocar incêndios e problemas elétricos, principalmente em aparelhos de alta potência. Agora, a solução para os adaptadores não é flexibilizar as tomadas, mas sim adotar o padrão para que este uso não seja mais necessário.

O que penso é que não existe nenhum argumento efetivamente técnico para trocar o sistema. Vai existir uma piora de segurança e as pessoas devem ser responsabilizadas por uma norma que, se aplicada, vai pôr em risco a população.

OC – A padronização trouxe insatisfação por parte de muita gente. Uma readequação pode trazer mais insatisfação?

J.C.S –  Não existe decisão livre de insatisfação. A questão é: a quem se quer atender? Tem gente que diz que a padronização veio para beneficiar certos grupos. Mas os grupos que foram beneficiados financeiramente com a mudança de padrão serão os mesmos beneficiados com uma nova troca. E, se lá na frente decidirem readotar o padrão, serão beneficiados mais uma vez. No ponto de visto do consumidor, o padrão é bom e é seguro.

OC –  Acredita que uma mudança desse tipo possa acontecer?

J.C.S –  Penso que por trás dessa questão existe uma ideologização de uma questão técnica, que não tem nada a ver com partido ou tendência política. Não se deve misturar uma coisa com a outra. Associar governantes a uma decisão técnica pode ser contraproducente. Não tenho bola de cristal, mas torço para que não aconteça.